(este texto é de autoria de Marco Antonio H. de Menezes e foi publicado no Facebook no dia 29/12/2013)
A derrota de Anderson Silva foi uma tremenda lição para os brasileiros: a lição da aceitação!
Diante da derrota, da perda, nós ficamos irracionais, idiotizados e
revanchistas. Tão difícil quanto vencer é perder, talvez seja até mais
difícil aceitar a derrota ou a perda. Quando não aceitamos a perda, nós
podemos ser hipnotizados pelo brilho fugaz da vaidade, do orgulho, da
soberba, por exemplo. Quando nos
deixamos contaminar pelo orgulho, pela vaidade e/ou pela soberba,
perdemos a noção do perigo, perdemos a noção de que uma perda pode ser
um passo para uma nova vida, um novo patamar, um novo aspecto dentro de
nossa vida. É sempre mais fácil acharmos que somos invencíveis, é sempre
mais fácil sermos sempre o herói, é sempre mais fácil transformarmos
alguém em um herói, é sempre mais difícil calar o ego. Quando perdemos
por um descuido, mas perdemos, tudo fica bem, apesar de nos sentirmos
momentaneamente para baixo. Quando encontramos o mesmo perigo de novo e
somos derrotados pela fragilidade de nosso corpo, a derrota fica muita
mais espinhuda, muito mais marcante e inesquecível, como se fosse uma
consciência contínua a nos lembrar do motivo fútil que nos levou até
aquela derrota.
Quando Anderson Silva perdeu a primeira luta, meses
atrás, para o mesmo algoz (Chris Weidman), imediatamente foi lançada uma
série de possibilidades, uma série de explicações para tentar definir o
óbvio: Anderson Silva foi derrotado. Ninguém aceitou aquela derrota,
muitas desculpas foram dadas, vídeos foram analisados e muitas
discussões foram feitas baseados no “achismo”. Mas o óbvio não estava
sendo aceito: ele não era um deus ou semideus, ele era um ser humano,
que, apesar da longa e positiva carreira dentro do mundo das lutas,
seria derrotado, perderia seu troféu para alguém que naturalmente o iria
suceder. Mas, o óbvio não é aceito facilmente. O próprio Anderson Silva
preferiu, sabiamente, retirar-se de cena e voltar para a sua vida. No
entanto, o ego, a soberba e o orgulho e, principalmente, a dificuldade
para aceitar derrotas, foram mais estimulantes (sem falar na grana que
circula neste meio!). Se Anderson Silva não deixasse o vírus da vaidade
tomar conta dele, se ele não ouvisse as sandices e nem aceitasse as
provocações de quem quer que seja, ele estaria no lugar que merece: o
maior campeão de lutas de todos os tempos que foi sucedido por alguém da
nova geração, ou seja, um herói que se retira no momento certo. Porém,
esta não foi a história: ele aceitou a provocação, a vaidade tomou
conta, o orgulho besta fez o resto do estrago e hoje ele não só é um
derrotado, mas um homem desonrado pela perna fraturada (sim: não foi o
oponente que o derrotou, mas a perna dele mesmo). De herói, ele passa
para mártir, coisa que brasileiro adora (Ayrton Senna, Ronaldinho e seu
joelho, por exemplo). Agora muitos rezarão pela sua recuperação, serão
gastas horas de vídeo para acompanhar a recuperação dele e até mostrarão
gráficos sobre o que aconteceu, sobre os perigos de certos golpes,
sobre outras pessoas que perderam lutas ou tiveram a má sorte de quebrar
alguma parte do corpo numa competição. Os amigos e conhecidos darão
entrevistas tentando explicar e dando o maior apoio. Enfim, uma novela
será montada. Do outro lado, surge o grande dragão da maldade, no melhor
estilo dos filmes de luta livre com Van Damme: o americano!
Imediatamente a alma brasileira vira seus olhos para o novo salvador: o
santo guerreiro Vítor Belfort. O santo guerreiro que empunha a lança e o
escudo divino irá derrotar o dragão da maldade e redimirá o mártir da
perna fraturada. E assim, mais uma vez sustentaremos a vaidade e o
orgulho de sermos brasileiros, a vaidade e o orgulho de que não podemos
ser derrotados nos esportes, não podemos ver nossos heróis serem
derrotados para os heróis dos outros. Mas, o problema todo é só um:
aceitar a derrota! Aceitar a derrota (ou qualquer outra coisa que nos
acontecer) é a verdadeira maneira para nos desapegarmos do ego e nos
levantarmos para uma nova estrada na vida. Aceitação é um passo para a
gratidão e para a compaixão, nunca para o orgulho, a vaidade e coisas do
tipo. Anderson Silva perdeu uma boa chance para mostrar que o
verdadeiro herói não é o que aceita a provocação, mas o que reconhece a
derrota. O povo brasileiro, em particular, deveria aprender esta lição,
para não ver sua perna fraturada. Apesar de tudo, eu espero que Anderson
Silva se recupere da melhor maneira possível, mas espero, também, que
os vírus da vaidade, da soberba e do orgulho (e a pressão dos
patrocinadores) não o ataquem mais.
